4. INTERNACIONAL 13.3.13

1. A MALDIO DA MMIA
2. BOM S PARA O PT

1. A MALDIO DA MMIA
O populista Chvez ressuscitou o pior das tradies polticas da Amrica Latina. Embalsamado para ser exposto na Venezuela, ele assombrar a regio por muitos anos com seu legado
DUDA TEIXEIRA, DE CARACAS

     Deu-se na semana passada, na Venezuela, com o anncio da mumificao de Hugo Chvez, a repetio de um padro quase infalvel entre os seguidores de lderes totalitrios, carismticos e, em muitos casos, assassinos seriais. Os rfos polticos desses ditadores embalsamam e guardam o corpo em uma urna transparente, para a qual erguem um palcio suntuoso como um templo pago. Os soviticos fizeram isso com Lenin, o pai da revoluo bolchevique, do terror e da censura que permitiram sua implantao. Repetiram a manobra com o sucessor, Stalin, a quem se deve hoje a constatao de que a represso, o crime, o totalitarismo e o terror de estado so essenciais ao comunismo  e no crueldade excessiva de um ou outro tirano. Lenin e Stalin mataram dezenas de milhes de pessoas. Seus seguidores fizeram outras centenas de milhes de vtimas. 
     As mmias de Lenin e Stalin (e a de Mo Ts-tung) ficaram como representao congelada da especialidade de cada um: a morte. A mmia de Chvez, contratao tropical de ditador comunista, vai ser a lembrana de um anacronismo, da reemergncia do caudilhismo em uma regio que j deveria ter se modernizado h dcadas (leia a entrevista na pg. 71). "Por favor, no me deixem morrer." Essas foram, segundo o general Jos Ornella, chefe da Guarda Presidencial, as ltimas palavras de Hugo Chvez Frias, na tera-feira. Ele tinha 58 anos e nos dois ltimos lutou, com a ajuda de mdicos cubanos, contra um cncer metasttico. A herana de Chvez para a Amrica Latina, se no for enobrec-la demais, poderia ser resumida nos versos do poeta chileno Pablo Neruda: "Plido buzo ciego, desventurado hondero, descubridor perdido, todo en ti fue naufrgio!". O naufrgio continuar sendo processado por Nicols Maduro, vice de Chvez e, na esteira da comoo de sua morte, praticamente imbatvel nas eleies presidenciais que sero convocadas em breve. Maduro, ex-motorista de nibus e sindicalista, criatura de Ral e Fidel Castro, vai enfrentar os gigantescos desequilbrios econmicos criados por Chvez. Nos catorze anos em que exerceu a Presidncia da Venezuela, Chvez perseguiu e prendeu opositores, demitiu juzes que questionaram suas ordens, expropriou empresas privadas, fechou canais de TV e rdios independentes e criou milcias e grupos armados. O coronel sempre almejou ser um governante vitalcio da Venezuela. Conseguiu, ainda que com a carreira mais curta do que esperava. Foi longa o bastante para deixar uma herana maldita para a Amrica Latina, cujo inventrio est a seguir. 
     
A VOLTA DOS MILITARES
     Em 1992, quando a maioria dos pases da Amrica Latina j estava livre dos governos militares e a Venezuela tinha um presidente civil, Carlos Andrs Prez, o at ento desconhecido coronel Hugo Chvez liderou uma quartelada para derrub-lo. Seis anos depois do fracasso da assuada, Chvez disputou a campanha presidencial e saiu-se vencedor. Para dirigir as estatais, recrutou colegas fiis. Soldados foram escalados para engrossar os atos do governo e executar as ordens de expropriao de empresas e fazendas. Chvez criou milcias civis, cujos integrantes atuam como quadrilhas de saqueadores impunes. Os generais de punhos erguidos em Caracas so smbolo do abismo em que Chvez jogou a Venezuela. A alternncia de poder passa pelos quartis, um fantasma que assombrou a Amrica Latina por dcadas e que parecia exorcizado. 

DESTRUIO DAS INSTITUIES 
     Ao tomar posse pela primeira vez, Hugo Chvez disse que estava jurando sobre uma Constituio moribunda. Em 1999, aprovou uma nova Carta que eliminou o Senado e estendeu seu mandato para seis anos. Tambm obteve dos deputados a primeira lei habilitante, que lhe possibilitou governar por decreto. O Poder Judicirio foi tomado em 2004. Nas principais instncias superiores, no h mais juzes independentes. Chvez submeteu a imprensa a seus caprichos. Em 2007, no renovou a concesso do maior canal de televiso da Venezuela, a RCTV. Outras TVs tiveram de aderir ao seu projeto poltico, por medo ou convenincia. 

A MENTIRA COMO POLTICA 
     Chvez estava moribundo em uma UTI em Cuba, e a verso oficial era que estava fazendo fisioterapia. Entubado e sedado, na verso oficial ele participava ativamente de reunies de at cinco horas de durao com seus ministros. Na era Chvez, os indicadores sociais e econmicos foram escondidos ou continham falsificaes grotescas. A farsa chegou perto dos padres de enganao da Argentina, onde saber a taxa de inflao ou de variao do PIB ficou to difcil quanto Cristina Kirchner se lembrar da cor original de seus cabelos. Em pases viveis, a taxa de desemprego cai quando so criados postos de trabalho. Na Venezuela de Chvez, o desemprego baixou por decreto quando o ditador mandou considerar empregados os miserveis includos nos programas de transferncia de renda. 

O INIMIGO EXTERNO 
     Todos os ditadores comunistas, sem exceo, puseram a culpa de seus fracassos em algum inimigo externo. A retrica de Chvez foi baseada na vingana contra os ricos e as pessoas da classe mdia (inimigos internos) e no dio aos Estados Unidos (inimigo externo). Sua morte deu ensejo ao mais audacioso e cretino anncio de seus rfos polticos. O governo venezuelano atribuiu o cncer fatal de Chvez ao "inimigo". Para no deixar dvida sobre de quem se falava, expulsou diplomatas americanos. Nicols Maduro disse que exumaria o corpo de Chvez no futuro, quando a medicina tivesse evoludo a ponto de provar que o cncer pode ser "introduzido" em uma pessoa por um inimigo. S mesmo uma sociedade amedrontada, mantida refm de benesses e na mais total ignorncia pode ouvir tamanha estupidez sem uma reao drstica. Pobres venezuelanos. Eles j tinham ouvido o prprio Chvez apontar experimentos secretos da Marinha americana como causadores do terremoto no Haiti, em 2010. Sem a ajuda do inimigo externo, os Chvez, os Castro, os Jongil no durariam um ms. 
     
CULTO A PERSONALIDADE
     Endeusar o lder  outro padro de regimes totalitrios que Chvez repetiu na Venezuela. A idolatria a Chvez foi criada e incentivada pelos seus propagandistas. Para dar certo,  preciso que o povo seja mantido na ignorncia e refm das ddivas governamentais. Um filmete divulgado logo depois da morte de Chvez exibia imagens paradisacas e informava que "ele vai voltar". H que levar a manipulao ao extremo da falta de tica para ter coragem de dizer  massa de miserveis que seu dolo vai ressuscitar. 

DILAPIDAO DO PATRIMNIO 
     A PDVSA  a Petrobras venezuelana. Em uma intensidade e desfaatez a que no Brasil ainda no se chegou, tornou-se instrumento poltico do chavismo. A renda do petrleo  usada para distribuir eletrodomsticos e alimentos em troca de votos. "A combinao de populismo com a renda petroleira criou na Venezuela o sistema de subsdios mais poderoso da histria da Amrica Latina e talvez do mundo", diz a cientista social venezuelana Isabel Pereira. A estratgia j ficou conhecida como "po hoje, fome amanha". O ministro das Finanas, Jorge Giordani, reconhece: "A revoluo necessita dos pobres para sobreviver". Basta um neurnio para concluir que os pobres tm de ser mantidos na pobreza. Caso eles ascendam na escala social, a revoluo no sobrevive. Palavras do ministro. 

DEMONIZAO DA CLASSE MDIA 
     A classe mdia encolheu de 30% para 20% da populao venezuelana. Foi o nico lugar do mundo onde esse fenmeno ocorreu. At na frica est surgindo uma classe mdia. Como qualquer socilogo amador pode atestar, a classe mdia  vital para a produo de riqueza e para a criao cultural e artstica das sociedades. Para o chavismo, basta ser de classe mdia para ser inimigo do regime. 

INTERVENCIONISMO 
     Chvez foi caixa de campanha de quase todos os candidatos presidenciais populistas na Amrica Latina e Central: Cristina Kirchner, o boliviano Evo Morales e o nicaraguense Daniel Ortega. O dinheiro da Venezuela responde por 22% do PIB de Cuba. 

A BAJULAO DOS TIRANOS 
     Chvez paparicou o lbio Muamar Kadafi, o bielorrusso Alexander Lukashenko e o srio Bashar Assad. 

A UTOPIA DO BEM COLEIVO 
     Chvez acabou com as j incipientes indstria e agricultura venezuelanas. Expropriou empresas privadas e tomou 4 milhes de hectares de proprietrios rurais. Em 2010, o governo confiscou conjuntos residenciais de bom padro em Caracas e distribuiu as casas para a nomenklatura chavista. Toda violncia foi cometida em nome do bem coletivo, um crime que a histria mostra ser apenas um atalho para o totalitarismo. 

A EQUAO DO ATRASO
O governo de Hugo Chvez transformou a PDVSA, a estatal petrolfera, em uma mquina de compra de votos, que distribui dinheiro e produtos subsidiados  populao pobre. O efeito foi desastroso.

A falta de investimentos fez a explorao de petrleo cair,...
Produo em milhes de barris dirios
1998  3,2
2011  2,6

...mas o preo disparou,...
Valor do barril em dlares
1998  10
2011  100

...garantindo ao governo sua fonte de recursos
Exportao de petrleo em bilhes de dlares
1998  12
2011  88

A PDVSA usou esse dinheiro para importar alimentos e distribu-los a preos subsidiados  populao,...
Dependncia de alimentos importados
1998  50%
2011  70%

...mas nem essa medida se mostrou suficiente para controlar a inflao
Taxa mdia anual (em %)
Venezuela: 1998  35,8
2013 (projeo)  29

Amrica Latina e Caribe: 1998  10
2013 (projeo)  5,8

Mundo: 1998  5,6
2013 (projeo)  3,7

Pases emergentes: 1998  12,9
2013 (projeo)  5,8

AS MENTIRAS NA DOENA
O governo venezuelano sempre escondeu a verdade sobre o cncer que venceu Hugo Chvez. Durante os quase dois anos de agonia, a nica informao consistente era que a enfermidade estava localizada na regio plvica.

MAIO 2011
Chvez apareceu de bengala e disse que havia sofrido uma leso no joelho esquerdo [MENTIRA]
O QUE DIZEM OS MDICOS - A dificuldade de andar estaria relacionada a um tumor na prstata em estgio avanado, que j teria tomado os ossos, ou seria um sintoma de sarcoma, forma rara de cncer que se manifesta tambm em msculos e ligamentos.

JUN 2011
Chvez foi a Havana para ser submetido a uma cirurgia de emergncia. Detectou-se um abscesso (acmulo de pus) na regio plvica. Dias depois, ele passou por nova cirurgia. Na operao, foi retirado um tumor do tamanho de uma bola de beisebol, como ele prprio definiu [ERRO MDICO]
O QUE DIZEM OS MDICOS - Em casos de metstase, como, ao que tudo indica, era o quadro de Chvez, as cirurgias no so recomendadas 

JUL 2011
O presidente venezuelano viajou novamente a Cuba para dar incio  quimioterapia, em quatro sesses [PROVVEL]
O QUE DIZEM OS MDICOS - Em casos de metstase, a quimioterapia  indicada para aumentar a sobrevida do doente. A grande quantidade de remdios pesados usada no tratamento pode prejudicar o funcionamento do fgado, o que explicaria o tom amarelado da pele do caudilho nesse perodo 

OUT 2011
Aps novos exames em Cuba, Chvez disse que o cncer fora superado [MENTIRA]
O QUE DIZEM OS MDICOS - A ausncia de vestgios de clulas cancerosas to pouco tempo depois do fim do tratamento no pode ser jamais considerada uma vitria contra a doena

FEV 2012
O governo venezuelano anunciou o diagnstico de "um novo tumor", de 2 centmetros de dimetro, na regio plvica. Chvez negou a possibilidade de metstase. Ele foi operado novamente em Cuba [MENTIRA]
O QUE DIZEM OS MDICOS - No poderia ser um novo tumor. Era, na verdade, uma recorrncia da doena. A recidiva deixou claro que Chvez no respondia bem  quimioterapia. Suas chances de sobreviver eram pequenas

MAR 2012
Chvez voltou a Cuba para iniciar o primeiro de cinco ciclos de radioterapia [PROVVEL]
O QUE DIZEM OS MDICOS - Nessa etapa, o cncer de Chvez j era inopervel. O recurso da radioterapia seria utilizado para diminuir o tamanho do tumor. No tinha funo curativa 

JUL 2012
Chvez afirmou, de novo, que estava totalmente livre do cncer [MENTIRA]
O QUE DIZEM OS MDICOS - Seria impossvel cogitar alguma possibilidade de cura

NOV 2012
Chvez embarcou para Cuba para se submeter a sesses de oxigenao hiperbrica. Segundo ele, o tratamento seria indicado para o combate dos efeitos colaterais da radioterapia [MENTIRA]
O QUE DIZEM OS MDICOS - A cmara hiperbrica normalmente  utilizada em pacientes com dificuldade de cicatrizao. Em um tratamento oncolgico, ela nunca  usada

DEZ 2012
Chvez anunciou a volta do cncer. Trs dias depois, realizou sua quarta operao em Havana, supostamente para extirpar o tumor [IMPROVVEL]
O QUE DIZEM OS MDICOS - A ltima cirurgia de Chvez no tinha a menor possibilidade de cur-lo. Pode ter sido uma cirurgia paliativa, para diminuir os sintomas do cncer

FEV 2013
Com dificuldade para respirar, Chvez foi submetido a uma traqueostomia. Foram divulgadas as primeiras imagens do caudilho depois de mais de dois meses sem vir a pblico. Ele estava em uma cama, cercado pelas filhas Rosa Virgnia e Mara Gabriela [PROVVEL]
O QUE DIZEM OS MDICOS - Pela imagem divulgada, a impresso  que Chvez estaria com dificuldade para se movimentar  ou porque o tumor teria atingido a coluna ou por um erro mdico durante a cirurgia.

MAR 2013
Chvez morreu s 16h25, horrio local. O vice-presidente acusou os "inimigos do pas" de "planos conspiratrios" contra o governo de Chvez, sugerindo que a doena do caudilho foi um "ataque" de seus inimigos [MENTIRA]
O QUE DIZEM OS MDICOS - No  possvel infectar algum propositadamente com cncer

ELE FOI O LTIMO CAUDILHO

O ensasta e historiador mexicano Enrique Krauze se dedica ao estudo dos governos populistas da Amrica Latina. Em seu livro O Poder e o Delrio, Krauze esmiuou a figura poltica de Hugo Chvez, um caudilho como nunca antes existiu, porque tinha a riqueza do petrleo para patrocinar sua ideologia messinica. Krauze falou  reprter Tatiana Gianini. 

Chvez era um caudilho? 
Caudilho era o termo que se usava, na Idade Mdia, para se referir aos chefes militares que lideravam grupos de seguidores devotos. Com o tempo, a palavra passou a ser usada na Amrica hispnica. Chvez representou uma forma indita do populismo caudilhista, pois controlava uma fortuna enorme, proveniente do petrleo, e a usava indiscriminadamente a seu favor para perpetuar-se no poder. Chvez via a si mesmo como um redentor, a juno de uma figura poltica com uma imagem religiosa. Essa combinao  muito nociva para a sade democrtica de um povo. A democracia  incompatvel com a liderana messinica. Nesse sentido, Chvez representou um retrocesso na modernizao da Amrica Latina, que j comeava a se libertar dessa tradio poltica. 

Como ele conseguiu angariar apoio popular e concentrar tanto poder? 
O caudilhismo de Chvez tinha trs caractersticas bsicas: o uso desenfreado da palavra pblica em pronunciamentos oficiais no rdio e na TV, controlados por ele; a concentrao de poder, por meio do servilismo dos poderes Legislativo, Judicial e Eleitoral e da promotoria pblica; e a f fantica numa doutrina, neste caso a anacrnica crena na possibilidade de sucesso de um socialismo do sculo XXI, que consistia em impor o modelo cubano a seu pas. 

De que maneira ele usou a religiosidade dos venezuelanos a seu favor? 
Na Venezuela, o catolicismo no  to forte quanto em outros pases da regio. Em vez disso, so muito populares as religies caribenhas, inclusive de origem africana, e o culto  figura de Simn Bolvar. Chvez, com muita habilidade, transferiu o culto de Bolvar ao de sua prpria pessoa. Transformou o heri da libertao do pas em um chavista, um socialista do sculo XXI, quando na verdade Bolvar era uma figura culta e ilustre do sculo XVIII, um leitor do francs Montesquieu, um republicano. No tinha nada que ver com o romantismo do sculo XIX nem com as ideologias nacionalistas e fascistas que vieram depois. 

O caudilhismo latino-americano termina com a morte de Chvez? 
A figura de um Chvez heri vai permanecer viva na memria dos venezuelanos, como a de Eva Pern na Argentina. O chavismo pode virar uma espcie de peronismo. Ou seja, um movimento que ganha vida prpria, sempre sustentado na viso do caudilho. No entanto, seus herdeiros polticos tero grandes problemas para explicar  populao por que um pas rico em petrleo est imerso numa crise to terrvel. Pouco a pouco, de forma dolorosa, o povo vai recobrar a conscincia e ter a oportunidade de mudar o curso da poltica nacional. Arrisco prever que Chvez foi o ltimo grande redentor poltico da Amrica Latina.  muito difcil a regio ter novamente um lder to rico em petrleo e em carisma quanto Chvez

COM REPORTAGEM DE NATALIA CUMINALE, NATHALIA WATKINS E TATIANA GIANINI


2. BOM S PARA O PT
A intimidade entre o partido do governo e Hugo Chvez ajudou a financiar o PT e satisfazer sua ala mais radical. J o Brasil s perdeu com ela.
OTVIO CABRAL 

     Em 1998, ano em que Hugo Chvez chegou ao poder na Venezuela, o PT perdeu a terceira eleio presidencial seguida no Brasil. A derrota rachou o partido. Um grupo continuou satanizando os Estados Unidos, tecendo loas a Cuba e defendendo a reforma agrria radical, o controle da imprensa, a expropriao de empresas estrangeiras e o apoio a movimentos guerrilheiros. Outro grupo, mais poderoso, se rendeu ao pragmatismo, aliou-se a partidos conservadores, atraiu empresrios e contratou um marqueteiro renomado para eleger Lula presidente quatro anos mais tarde. Se poucas questes unem as duas alas petistas, a admirao ao ditador venezuelano agora morto e o apoio ao seu governo esto entre elas. Para os radicais, Chvez  motivo de inveja, uma vez que fez na Venezuela tudo o que eles sonhavam fazer no Brasil. J para os pragmticos, o caudilho era um parceiro comercial importante. Amigo de Chvez, Jos Dirceu  o ex-chefe da Casa Civil de Lula, condenado a dez anos e dez meses de priso por ter comandado o mensalo  liderou o apoio do PT ao governo chavista e trabalhou na prospeco de negcios para empresas brasileiras naquele pais. Em troca, elas financiavam campanhas do partido. 
     "Chvez fez em seu pas o que o PT originalmente queria fazer no Brasil mas no pde, porque aqui h instituies fortes e uma imprensa vigilante. Por isso se tornou um dolo dos petistas. Para eles,  como se fosse um amigo que se deu bem na vida e passou a ser invejado", compara o historiador Marco Antnio Villa, da Universidade Federal de So Carlos. Com a chegada do PT ao poder, em 2003, as relaes comerciais com a Venezuela foram multiplicadas por quatro, alcanando 6 bilhes de dlares em 2012. Como o pas praticamente no tem indstria e sua economia depende do petrleo, o governo aumentou a importao de bens e servios brasileiros. A quem fez a festa foram as empreiteiras, que, com a ajuda do BNDES, foram contratadas para realizar obras do porte de hidreltricas, estradas e aeroportos. Apenas a Odebrecht comanda projetos orados em 3 bilhes de dlares. No por coincidncia, essas mesmas empreiteiras so as maiores doadoras das campanhas petistas: dos dez principais financiadores, seis so construtoras com negcios em Caracas. 
     A relao ntima com Chvez pode ter sido benfica para as finanas e o discurso do PT, mas s trouxe desvantagens para o Brasil. O pas viu sua influncia na Amrica Latina ser reduzida pelo dinheiro do petrleo de Chvez, que comprou o apoio de pases como Cuba, Paraguai, Equador e Bolvia. Em importantes disputas comerciais, o caudilho nunca ficou ao lado do Brasil  o caso mais simblico foi o apoio  Bolvia quando Evo Morales decidiu nacionalizar empresas brasileiras de energia, em 2006. Ainda assim, o governo de Lula continuou privilegiando os negcios com a Venezuela, at quando prejudicavam os interesses nacionais. Em 2005, a Petrobras se associou  PDVSA (estatal venezuelana de petrleo) para construir uma refinaria em Pernambuco, desprezando proposta mais vantajosa da Arbia Saudita. A PDVSA jamais honrou sua parte na sociedade e apenas neste ano, j no governo Dilma Rousseff, recebeu da Petrobras um ultimato para que pagasse sua parte na obra, que supera os 8 bilhes de dlares. Alm dos prejuzos econmicos e diplomticos, o governo brasileiro se apequenou aos olhos do mundo desenvolvido ao apoiar um autocrata que devastou a economia de seu pas e corroeu suas instituies. 
     O apoio do PT  eleio de Nicols Maduro para suceder a Chvez demonstra que o partido aprova e quer prolongar a relao desigual com a Venezuela. Na semana passada, o marqueteiro oficial do petismo e do chavismo. Joo Santana, ps no ar os primeiros comerciais da campanha de Maduro  todos centrados em Chvez e com frases como "Ele vai voltar" e "Nascer de novo". Seria um sonho para o PT. E um pesadelo para o Brasil.

